Nunca como nos nossos dias se falou tanto de stresse, saúde mental e riscos psicossociais no local de trabalho.

Em 2019 a Organização Mundial de Saúde incluiu a Síndrome do Burnout – estado de esgotamento físico e mental causado pelo exercício de uma atividade profissional – na lista de doenças e desde o início deste ano que é considerada uma doença ocupacional.

De facto, o stresse e a falta de Saúde Psicológica no trabalho não têm apenas um custo humano enorme, mas também um impacto significativo na sociedade e na economia. Estima-se que os trabalhadores se ausentem, devido a estas condições, até 6,2 dias por ano, atingindo o presentismo, ou seja, estar no trabalho mas produzir muito abaixo do que seria possível, até 12,4 dias. Estes dados mostram que os custos de produtividade para as empresas e governo podem chegar a €3,2 mil milhões por ano, o equivalente a construir três pontes Vasco da Gama[1].

Tendo em conta este cenário cuja pandemia não veio melhorar, como poderão os contributos das investigações mais recentes da Psicologia contribuir para criar um maior bem-estar nas equipas e organizações?

Martin Seligman, fundador da Psicologia Positiva, criou um modelo, testado e implementado, por exemplo, no US Army, que ajuda a treinar a resiliência, o bem-estar e o otimismo. Baseia-se em 5 blocos e é designado por PERMA, cuja sigla refere-se a:
1) P – Positive Emotions;
2) E - Engagement;
3) R - Relationship;
4) M - Meaning
5) A - Accomplishment.
Em 2014, uma investigadora e aluna de Martin Seligman da Universidade de Pensilvânia, Emiliya Zhivtovskaya, descobriu um novo elemento e que fora adotado na sigla – Vitalidade, ficando PERMA-V. Este último remete para o cuidar do corpo através de uma alimentação saudável, exercício físico, higiene do sono, entre outras dimensões relacionadas com a saúde física.

A boa notícia é que para cada um destes segmentos é possível ajustar hábitos diários, reestruturar pensamentos, treinar o cérebro para se focar nos aspetos positivos e menos nos negativos (tendência mais natural); cuidar mais das relações através, por exemplo, da forma como damos feedback, aderir a atividades que possam potenciar o sentido e propósito da vida, criar e procurar alcançar objetivos SMART, proporcionando um sentido de realização e de controlo sobre os eventos que ocorrem. E que estas metas a que nos propomos possam, simultaneamente, ser PERMA-V. Ou seja, que tenham propósito, que sejam capazes de proporcionar emoções positivas e alimentar a qualidade dos relacionamentos.

Sabemos que os hábitos moldam o cérebro. Como tal, é possível adaptá-lo para o bem-estar e felicidade, através deste treino e tocando cada um destes blocos do PERMA-V. Simultaneamente, é um excelente preditor no combate ao stresse e na melhoria da saúde mental nas organizações. A ciência assim o tem evidenciado.

Vera Fernandes

[1] Ordem dos Psicólogos Portugueses (2020). Prosperidade e Sustentabilidade das Organizações. Relatório do Custo do Stresse e dos Problemas de Saúde Psicológica no Trabalho, em Portugal. Lisboa.