"Não vemos as coisas como elas são. Vemos as coisas como nós somos." — Anaïs Nin
Uma ilustração clássica de W. E. Hill, publicada em 1915, designada por “Moça ou Velha?” pode ser vista como uma jovem a olhar para trás ou uma senhora idosa de perfil com um lenço na cabeça e queixo comprido.
A perceção muda conforme focamos em diferentes partes da imagem.
E se este foco que muda fosse aplicado no nosso dia-a-dia?
Do ponto de vista neurocientífico, o córtex pré-frontal medial está envolvido na formação de impressões sociais rápidas (Amodio & Frith, 2006). Esse mecanismo ajuda-nos a tomar decisões rápidas, mas também nos torna suscetíveis a vieses, como o da negatividade (Baumeister et al., 2001), pelo qual damos mais peso a uma experiência má do que a várias boas.
Assim como o nosso cérebro “escolhe ver" a jovem ou a velha, também decide interpretar uma característica ao percecioná-la como negativa. Este processo, muitas vezes inconsciente, pode ser ajustado com treino de atenção e empatia.
Nos momentos em que somos confrontados com um comportamento diferente de um colega, uma diferença sociocultural, uma restrição física... ajuda colocar “em pausa” o julgamento e questionar “Que outra leitura este comportamento poderia ter?”, “Por que razão o que aconteceu me faz sentir desta forma?”. Alguém que se atrasou para uma reunião pode estar a lidar com um problema familiar:O comportamento é a "imagem"; o contexto é o "foco", e, esta perspetiva pode mudar muitos dos julgamentos.
A prática da atenção plena – mindfulness - tem também se mostrado eficaz em reduzir julgamentos automáticos (Kiken & Shook, 2011). A chave? Estar presente o suficiente para perceber que o que vemos no momento pode não ser suficiente para justificar um determinado comportamento.
A imagem da "Moça ou Velha" é mais do que um truque visual —é um espelho do nosso comportamento social.Ao percebermos que a nossa perceção pode ser apenas uma das muitas possíveis, abrimos espaço para o entendimento, a empatia e a colaboração verdadeira no ambiente profissional e pessoal.
Referências
Amodio, D. M., & Frith, C. D. (2006). Meeting of minds: the medial frontal cortex and social cognition. Nature Reviews Neuroscience, 7(4), 268–277.
Kiken, L. G., & Shook, N. J. (2011). Looking up: Mindfulness increases positive judgments and reduces negativity bias. Social Psychological and Personality Science, 2(4), 425–431.